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A seda de Margilan: a fábrica Yodgorlik, do casulo ao ikat
Equipe AroundCA

A seda de Margilan: a fábrica Yodgorlik, do casulo ao ikat

Um único casulo de seda guarda quase um quilômetro de filamento, mais fino que um fio de cabelo. Na fábrica Yodgorlik, em Margilan, você vê esse filamento sair do casulo numa bacia de água quente, e uma hora depois está ao lado de um tear onde ele já virou tecido, com um desenho que parece levemente fora de foco. Esse esfumado não é defeito. É a assinatura do ikat, e ele entra no fio muito antes de alguém começar a tecer.

Nosso guia do Vale de Fergana explica como chegar ao vale e o que mais ver por lá. Este artigo entra na seda: o que acontece em cada etapa, o que observar em cada oficina da Yodgorlik, como comprar bem e como encaixar a visita numa viagem com Rishtan e Kokand.

Primeiro passo: um casulo em água quente

Casulos em água quente na Yodgorlik: a goma amolece e o filamento se desenrola
Casulos em água quente na Yodgorlik: a goma amolece e o filamento se desenrola

A seda começa com uma lagarta que se envolve num casulo. No Vale de Fergana, as lagartas comem folhas de amoreira da primavera e tecem seus casulos entre meados de abril e meados de maio. A fábrica não cria lagartas: compra os casulos às toneladas.

O filamento é unido por uma goma natural, a sericina, e é a água quente que a amolece. Na oficina de fiação, os casulos boiam em bacias enquanto uma operária encontra as pontas soltas e as leva até a meada. Um filamento sozinho é fino demais para tecer, então vários são torcidos num único fio.

Vale a pena demorar nesta sala. Tudo o que vem depois, da cor ao desenho, depende de um fio que começa aqui, um casulo de cada vez.

Do fio à urdidura

Meadas de seda crua penduradas junto às máquinas de fiação
Meadas de seda crua penduradas junto às máquinas de fiação

A seda desenrolada é juntada em meadas e pendurada junto às máquinas. O fio destinado à urdidura, os fios longitudinais do futuro tecido, vai então para uma grande armação giratória e dali para dois rolos, que colocam os fios lado a lado numa ordem exata.

Essa ordem importa aqui mais do que em quase qualquer outra tecelagem. No ikat de Margilan, o desenho mora na urdidura. Cada fio vai levar sua própria sequência de cores, e se um sair do lugar, o desenho sai junto.

Boa parte do maquinário destas oficinas é da época soviética. A fábrica abriu em 1972, foi empresa estatal de 1982 a 1993 e foi privatizada em 2000, quando recebeu o nome Yodgorlik.

Abr: desenhar uma nuvem nos fios

Marcação do desenho do ikat na urdidura esticada antes do tingimento
Marcação do desenho do ikat na urdidura esticada antes do tingimento

A palavra local para ikat é abr, “nuvem” em persa, e o ofício de amarrar o desenho se chama abrbandi. Com a urdidura esticada, o desenho é marcado nos feixes de fios: onde cada cor começa e onde termina.

Depois os feixes são amarrados. Enrola-se linha bem apertada em volta de cada trecho que deve ficar sem tinta, e a urdidura vai para o banho de tingimento. As partes amarradas mantêm a cor. Cortam-se as amarras, amarram-se outros trechos e a urdidura vai para a cor seguinte. Cada cor a mais significa mais uma rodada de amarração e tingimento; desenhos complexos passavam por seis a oito.

Os motivos têm nomes antigos sobre os quais vale perguntar: anorcha, a romãzinha; bodom, a amêndoa; kuchkor shokhi, os chifres de carneiro; tarok, o pente. Peça ao seu guia que encontre um na urdidura antes do tingimento. No tecido pronto, você vai reconhecê-lo na hora.

Tingimento: fogo de lenha e cores naturais

Seda tingida, fibra de seda e fio desenrolado sobre um corte de ikat
Seda tingida, fibra de seda e fio desenrolado sobre um corte de ikat

As cubas de tingimento são aquecidas em fogões a lenha. Até a década de 1880, os tintureiros da Ásia Central trabalhavam só com cores naturais: índigo para o azul, raiz de garança e cochonilha para vermelhos e rosas, nogueira e casca de carvalho para os marrons, açafrão e lírio-dos-tintureiros para os amarelos. Depois os corantes sintéticos tomaram conta de quase tudo.

A Yodgorlik voltou aos corantes naturais nos anos 1990. Em 1996, quatro de seus melhores funcionários foram à Índia aprender tingimento natural, e hoje a fábrica usa amplamente esse método; os sintéticos ficam sobretudo para o tecido mecânico, mais barato. Na hora de comprar, pergunte quais corantes foram usados na peça.

O mesmo renascimento segue na cidade, no Centro de Desenvolvimento do Artesanato de Margilan, aberto pela comunidade local em 2007, onde tecelagem e tingimento natural são ensinados de mestre para aprendiz. Em 2017, a UNESCO incluiu seu trabalho com atlas e adras no Registro de Boas Práticas de Salvaguarda.

No tear: khan-atlas, adras e seus parentes

Um tear manual com a urdidura tingida na sala de tecelagem
Um tear manual com a urdidura tingida na sala de tecelagem

Só agora começa a tecelagem. A urdidura tingida é montada num tear manual e a trama passa por ela. Os fios foram tingidos em feixes e nunca se alinham com perfeição, por isso a borda de cada motivo treme um pouco. Os tecelões da Ásia Central mantêm esse esfumado de propósito, enquanto outras tradições de ikat buscam linhas nítidas.

Dois tecidos são os principais. O khan-atlas é seda pura, densa e brilhante, o tecido das festas. O adras tem urdidura de seda e trama de algodão; o algodão, mais grosso, dá a ele uma superfície de canelado fino, e ele é mais barato e mais fácil de lavar. A Yodgorlik também tece o shoyi, uma seda pura, os meia-seda bekasam e jujuncha e um algodão simples chamado boz.

Cerca de 6.000 metros de tecido saem dos teares por mês: 60% seda pura, 25% seda com algodão, 15% algodão. Das 450 pessoas que trabalham aqui, 85 são tecelões.

Tapetes de seda: a sala silenciosa

Um tapete de seda no tear sob seu gráfico de desenho
Um tapete de seda no tear sob seu gráfico de desenho

A oficina de tapetes passa fácil despercebida e vale a pena procurá-la. Uma equipe de 26 pessoas dá os nós de tapetes de seda aqui, seguindo um gráfico pendurado acima do tear. O desenho do ikat é tingido na urdidura antes da tecelagem; o do tapete se constrói durante a tecelagem, nó a nó. Ver os dois na mesma manhã é o jeito mais rápido de entender as duas lógicas do têxtil uzbeque.

Se você está pensando num tapete, veja primeiro o trabalho aqui. Nosso guia sobre o que comprar no Uzbequistão explica como distinguir um tapete de nós feitos à mão de um feito à máquina e o que a alfândega vai perguntar quando você o levar para casa.

Comprar tecidos e robes

Um robe de ikat de seda
Um robe de ikat de seda

A loja da fábrica vende khan-atlas e adras por metro, além de lenços, robes e chapans prontos e têxteis para a casa. Antes de pagar, confira duas coisas.

Primeiro, vire o tecido. No ikat verdadeiro, o desenho é tingido nos fios, então aparece dos dois lados; uma estampa fica pálida no avesso. Segundo, pergunte como foi feito. A Yodgorlik também tem uma oficina mecânica, e o tecido dela custa cerca de um terço a menos que o tecido à mão. Os dois são produtos honestos, mas não são a mesma coisa.

O adras é a escolha prática para algo que você vai usar e lavar. O khan-atlas é para uma peça guardada para dias especiais. Cada corte tingido à mão é um pouco diferente, então, se precisar de vários metros iguais, pegue-os do mesmo rolo.

Planejando a visita: roteiro, horários, festival

Seda e cerâmica ficam a pouca distância uma da outra. O trem nº 730 sai de Tashkent todos os dias às 09:20 e chega a Kokand às 12:28 e a Margilan às 13:00. O nº 729 sai de Margilan às 16:11 e chega a Tashkent às 19:53. Rishtan, a cidade dos oleiros, fica entre Kokand e Margilan, a cerca de 50 km de cada uma.

Nossa ordem habitual: o trem da manhã até Kokand e o palácio de Khudoyar Khan, as oficinas de Rishtan à tarde e uma noite em Margilan ou Fergana. A Yodgorlik rende mais logo cedo na manhã seguinte, quando você ainda tem disposição para acompanhar cada etapa. Assim sobra tempo para o bazar de Kumtepa, fora da cidade, mais movimentado às quintas e domingos, antes do trem da tarde. Com um terceiro dia, acrescente Andijan ou as ruínas de Akhsikent, a antiga capital do vale às margens do Syr Darya. Nosso tour de artesanato do Vale de Fergana dá quatro dias à região, com uma sessão no torno de oleiro em Rishtan e uma manhã inteira na Yodgorlik.

  • Onde: no centro de Margilan, a uns cinco minutos a pé da rodoviária. Margilan tem estação própria na linha férrea Tashkent–Andijan.
  • Quanto tempo: a visita guiada pelas oficinas leva cerca de meia hora; com a oficina de tapetes e a loja, reserve de 1h30 a 2 horas.
  • Com guia: a maioria dos funcionários só fala uzbeque, então venha com alguém que possa explicar cada etapa. As visitas começam na loja.
  • Dias: é uma fábrica em funcionamento, não um museu, por isso combinamos o dia e o horário com a Yodgorlik ao reservar sua visita.
  • Quando ir: abril–maio e setembro–outubro. Nas tardes de julho, o vale tem média de 35 °C.
  • Atlas Bayrami: o festival internacional de têxteis tradicionais de Margilan. A sétima edição foi aberta em 17 de setembro de 2026, com feira de artesanato, oficinas de tecelagem e de tapetes e um desfile de moda. As datas mudam de ano para ano; avise se quiser pegar o festival, e montamos a viagem em torno delas.

Em resumo

  • Na Yodgorlik você acompanha a seda em cada etapa feita à mão: fiação dos casulos em água quente, urdimento, marcação, amarração, tingimento e tecelagem.
  • Abr quer dizer “nuvem”: o desenho é amarrado e tingido na urdidura antes da tecelagem, e isso dá ao ikat suas bordas suaves.
  • O khan-atlas é seda pura; o adras tem urdidura de seda e trama de algodão e é mais fácil de lavar.
  • O ikat verdadeiro mostra o desenho dos dois lados do tecido; o tecido mecânico da fábrica custa cerca de um terço a menos.
  • Combine a Yodgorlik com Rishtan e Kokand em dois dias e vá na primavera ou no outono.

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