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Akhsikent: a antiga capital de Fergana às margens do Syr Darya
“Em toda Fergana, nenhuma fortaleza é tão forte quanto Akhsi.” Babur escreveu isso sobre a cidade onde o pai dele mantinha a corte. Pare na beira das ruínas e você entende por quê: lá embaixo corre o Syr Darya, e as ravinas profundas abertas na margem fazem as vezes de fosso.
Akhsikent, também escrita Akhsikath, fica na margem direita do rio, a cerca de 22 km a sudoeste de Namangan, no distrito de Turakurgan. É o maior sítio arqueológico do vale de Fergana, e hoje você o percorre por passarelas de madeira cobertas. Veja o que você está olhando e como encaixar o lugar numa viagem pelo vale.
De Fergana a Akhsikath: quase dois mil anos de uma cidade
A cidade foi fundada no século III a.C., e o nome dela mudou mais de uma vez. Até meados do século IX, os textos medievais a chamavam simplesmente de Fergana, como o vale. A partir da segunda metade do século IX ela foi Akhsikath, e só no fim da Idade Média passaram a dizer Akhsikent.
Nos séculos IX e X, Akhsikath foi a capital do vale de Fergana, e as moedas cunhadas aqui circulavam por todo o Estado samânida. No auge, entre os séculos X e XII, a cidade tinha uma mesquita de sexta-feira, uma esplanada para as orações festivas, o palácio do emir, uma prisão e jardins. A água vinha do rio Kosonsoy, a 14–15 km, por um canal subterrâneo.
Em 1219 a cidade foi saqueada por Jebe, um dos generais de Gengis Khan. Ela se recuperou: no século XV voltou a ser a sede dos governantes de Fergana. O fim veio em 1620, quando um terremoto a deixou em ruínas. Os sobreviventes se mudaram para a vizinha Namangan.
Cidadela, shahristan e rabad
Como a maioria das cidades da região, Akhsikath tinha três partes. A cidadela, ou ark, abrigava o palácio do governante e a prisão e era separada do resto por uma muralha própria. Em volta ficava o shahristan, a cidade interna com a mesquita de sexta-feira e o mercado principal. Do lado de fora ficava o rabad, a cidade externa dos artesãos.
Os arqueólogos descobriram uma oficina de ferreiro, uma casa de banhos dos séculos X–XIII, quartéis, a mesquita de sexta-feira, as muralhas e o palácio do governante. As ruínas preservadas ocupam cerca de 60 hectares. Desde 2008 o sítio, registrado como Ahsiket, está na Lista Indicativa do Uzbequistão para o Patrimônio Mundial da UNESCO.
O que você vê hoje
As primeiras escavações aqui foram feitas em 1885. Desde 2019, parte da cidade antiga funciona como museu a céu aberto, e ao longo dos anos outros objetos escavados foram incorporados. Você não precisa escalar terra solta: segue pelas passarelas, e as partes mais frágeis ficam sob um telhado.
As passarelas cobertas

Passarelas de madeira com corrimão e um telhado curvo translúcido correm sobre as colinas da cidade velha, com degraus onde o terreno desce para uma ravina. Elas mantêm você longe das muralhas e protegido do sol de verão.
Ao longo do caminho, placas em uzbeque e em inglês indicam cada ponto. Uma delas leva à muralha defensiva da cidade, datada do fim do século XII e início do XIII: a muralha que a cidade tinha quando os mongóis chegaram, em 1219.
A escavação sob o telhado

O destaque é um grande galpão construído bem em cima de um bairro escavado. Você contorna a borda atrás de um cordão e olha para dentro da trincheira: muros de adobe, estruturas abobadadas de tijolo, fossas redondas e, nos cortes da escavação, as camadas de terra que cada século deixou.
Painéis ao longo das paredes mostram o que mais foi estudado aqui, como canais abobadados de tijolo e escadas que descem para debaixo da terra.
Aço, vidrado e um jarro da escavação

Akhsikath era uma cidade de artesãos: vidreiros, oleiros, ferreiros e armeiros. Seu produto mais famoso era o aço de cadinho. Do século IX ao XII, os ferreiros lacravam o ferro junto com madeira ou outra matéria orgânica em cadinhos de argila e os aqueciam a cerca de 1.400–1.500 °C, até o metal derreter num lingote de aço limpo. Os arqueólogos encontraram milhares de fragmentos de cadinhos, restos de uma produção em escala industrial. Ela terminou com a invasão mongol.
Uma expedição britânico-uzbeque estudou os cadinhos em 2002, e hoje os metalurgistas chamam esse modo de fazer aço de Ferghana Process.
Os oleiros não ficavam atrás. Do sítio vêm tigelas vidradas pintadas de verde e turquesa, e um painel no galpão mostra tigelas pintadas, um fragmento com uma ave de bico longo e duas jarras vidradas. Numa temporada recente, os arqueólogos registraram cerca de 4.000 objetos, entre eles um jarro intacto com engobe vermelho dos séculos I–II d.C. e recipientes dos séculos XI–XII que provavelmente guardavam mercúrio. No galpão há um grande jarro de barro, remontado a partir dos cacos com grampos de metal.
A Akhsi de Babur
Babur, fundador da dinastia mogol, nasceu em Andijan em 1483, e suas memórias, o Baburnama, descrevem Akhsi em detalhe. Depois de Andijan, escreveu ele, nenhuma cidade de Fergana era maior. O pai dele, Umar Shaikh Mirza, fez dela sua capital e mandou abrir mais ravinas além das externas. Os subúrbios, observou Babur, se estendiam cerca de duas milhas além das muralhas.
Ele tinha orgulho dos melões de lá. Uma variedade, o Mir Timuri, talvez não tivesse igual no mundo, segundo ele. Num banquete em Samarcanda, mandou servi-los ao lado de melões de Bukhara, e os de Bukhara não chegavam aos pés deles.
Em 1494, Umar Shaikh Mirza cuidava dos seus pombos quando o pombal, construído sobre a ravina abaixo do palácio, desabou e caiu. O filho dele, de onze anos, tornou-se governante de Fergana.
Como chegar a Akhsikent

De Namangan. O sítio fica a cerca de 22 km a sudoeste da cidade, na margem do Syr Darya. Levamos nossos viajantes de carro, com motorista e guia. Uma hora no local basta para as passarelas e a escavação coberta; reserve duas se você quiser seguir as passarelas até a muralha da cidade.
De Tashkent. A estrada para o vale cruza o passo de Kamchik, onde a A373 sobe a 2.268 m. No inverno o passo pode fechar por risco de avalanche, e aí vamos de trem. A Uzbekistan Airways voa de Tashkent a Namangan em cerca de uma hora, e o trem diário chega a Kokand às 12h28, de onde nosso motorista leva você pelo vale. Um bate-volta de Tashkent é longo; preferimos uma noite em Namangan, e se você voltar de carro no mesmo dia, vai cruzar as montanhas ao pôr do sol.
Combine com Namangan, Kokand e Margilan
Akhsikent se encaixa facilmente numa viagem pelo vale de Fergana. Passe o resto do dia em Namangan e depois siga para o sul, do outro lado do rio: Kokand e o palácio de Khudoyar Khan, os oleiros de Rishtan e Margilan, onde a seda ikat ainda é tingida e tecida à mão. Nosso guia do vale de Fergana traz todos esses lugares, e o que comprar no Uzbequistão explica como reconhecer seda e cerâmica feitas à mão.
Nosso tour de artesanato do vale de Fergana dura quatro dias, de trem a partir de Tashkent e de volta, e a extensão ao vale de Fergana acrescenta o vale a um roteiro clássico. Diga que você quer ver Akhsikent e nós incluímos no programa, com um guia que fala o seu idioma.
Em resumo
- Akhsikent, a cerca de 22 km a sudoeste de Namangan, foi fundada no século III a.C. e foi a capital do vale de Fergana nos séculos IX–X.
- A cidade se recuperou do saque mongol de 1219 e foi destruída de vez por um terremoto em 1620; seus moradores se mudaram para Namangan.
- Seus ferreiros produziam aço de cadinho em escala industrial do século IX ao XII.
- Babur a chamou de fortaleza mais forte de Fergana; o pai dele fez dela sua capital e morreu ali em 1494.
- Passarelas cobertas e uma escavação sob telhado tornam a visita fácil: uma ou duas horas, de preferência junto com Namangan, Kokand e Margilan.



