
O mausoléu de Aisha Bibi perto de Taraz: a lenda e o túmulo de terracota
Encoste a palma da mão na parede de Aisha Bibi e você vai sentir antes de ver: a superfície não é lisa. Cada placa é entalhada, aqui uma cruz, ali uma estrela, uma treliça minúscula, e um único prédio pequeno reúne mais de sessenta padrões diferentes. Nove séculos depois, o barro ainda lança sobre si uma rede fina de sombras. Sem cor, sem esmalte. Só luz.
O mausoléu fica no vilarejo de Aisha Bibi, 18 km a oeste de Taraz, no sul do Cazaquistão. Trazemos nossos viajantes aqui nos roteiros que passam do Uzbequistão para o Cazaquistão e o Quirguistão, e sempre contamos a história primeiro. O prédio faz mais sentido quando você sabe para quem ele foi feito.
A lenda de Aisha Bibi e Karakhan

Há muito tempo, conta a história, Karakhan, o jovem soberano de Taraz, apaixonou-se por Aisha, uma moça de dezesseis anos. O pai dela não queria nem ouvir falar do casamento. Aisha escolheu o amor mesmo assim. Partiu em segredo para Taraz, tendo ao lado apenas sua ama, Babaji Khatun.
O pai não foi atrás dela. Disse algo pior: ela atravessaria seis rios, mas não o sétimo.
O sétimo rio era o Asa, quase na entrada de Taraz. Aisha parou na margem para se banhar e se vestir antes de encontrar o noivo. Uma cobra estava escondida em seu toucado. E a picou.
Karakhan chegou a cavalo com curandeiros e mulás, mas ninguém conseguiu salvá-la. Então pediu a um mulá que os casasse ali mesmo, enquanto ela ainda vivia. Ditas as palavras, ele lhe disse: “Aisha, agora você se tornou bibi.” Bibi queria dizer sua esposa. Pouco depois, ela morreu.
Karakhan a enterrou na colina onde ela morreu e ergueu um mausoléu sobre o túmulo. Em Taraz ainda o chamam de monumento ao amor e à fidelidade.
Outras versões da história
É uma lenda, e lendas viajam: conhecem-se cerca de 28 versões. Em algumas, o pai de Aisha é o poeta sufi Hakim Ata; em outras, é Zengi Baba. Em uma, a cobra não se esconde no toucado, e sim nas roupas. Alguns relatos começam a viagem dela em Otrar, às margens do Syr Darya.
Uma historiadora liga a história a uma morte real, em 1034: uma filha do soberano de Talas, como Taraz se chamava então, que morreu a caminho de Ghazni, onde o noivo, um príncipe, a esperava. Quase todas as versões guardam o mesmo coração: um rio, uma cobra e um soberano que chegou tarde demais.
Babaji Khatun: a ama que ficou

A lenda tem uma segunda heroína. Depois da morte de Aisha, Babaji Khatun não voltou para casa. Ficou junto ao túmulo e cuidou dele. Quando morreu, foi enterrada perto da sua menina, e sobre ela também se ergueu um mausoléu. Com o tempo, passou a ser venerada como santa.
O túmulo dela fica a poucos passos do de Aisha Bibi, no fim da mesma alameda. É um quadrado simples de tijolo cozido com uma cúpula cônica nervurada. Nichos, medalhões, molduras entalhadas e janelas em arco animam as paredes, e uma inscrição árabe na fachada principal traz o nome dela e o do construtor.
Um túmulo dos séculos XI–XII entalhado em terracota

Aisha Bibi é dos séculos XI–XII, quando Taraz era governada pelos caracânidas e vivia seu auge. É um pequeno túmulo quadrado com um portal alto e um telhado cônico pontiagudo. Pertence à mesma família de construções do ,Um túmulo familiar da dinastia samânida dos séculos 9–10, um dos monumentos mais antigos da arquitetura islâmica preservados na Ásia Central, todo feito de tijolos em padrões. Saiba mais → em Bukhara, onde o próprio tijolo é a decoração.
O que o torna raro é a forma como essa decoração é feita. As paredes são revestidas de placas de terracota entalhadas com mais de 60 padrões florais e geométricos. Elas não estão coladas como uma pele: as placas fazem parte da parede e ajudam a mantê-la de pé. Sob sol forte, o entalhe quebra a luz em milhares de pequenas sombras, e as paredes nunca ofuscam. É o jeito de decorar de antes dos mongóis: com luz e sombra, não com cor.
Repare nos cantos. As colunas redondas dos cantos imitam as colunas de madeira das antigas casas sogdianas, só que aqui são de barro.
Um verso em escrita cúfica

Cada coluna de canto tem uma faixa de caligrafia no ponto mais estreito. Numa delas, em escrita cúfica angulosa, um poeta desconhecido deixou um verso que diz, traduzido: “Outono… Nuvens… A Terra é bela…”. Tiramos as fotos deste artigo numa manhã cinzenta de novembro, e o verso caiu como uma luva.
Restauração: Aisha Bibi é patrimônio da UNESCO?
O túmulo que você vê hoje é em parte original e em parte uma reconstrução cuidadosa. Shokan Valikhanov, estudioso e viajante cazaque, pintou a ruína em 1856, e o orientalista Vasily Bartold a registrou em 1893. Na época soviética, o que restava ficava sob uma cobertura protetora de vidro.
A restauração que deu ao mausoléu sua aparência atual foi feita em 2002, junto com o parque em volta dos dois túmulos. Do prédio original só havia sobrado cerca de um terço. Os tijolos novos foram feitos com argila de Sauran, a mesma dos antigos.
Aisha Bibi é um monumento nacional protegido pelo Estado, como diz a placa no portão. Não faz parte do patrimônio mundial da UNESCO das Rotas da Seda, embora às vezes se leia o contrário. Essa inscrição de 2014 inclui, sim, vários sítios de cidades antigas da mesma região de Jambyl, e Balasagun com a torre de Burana, no Quirguistão.
Por que os recém-casados vêm aqui
A lenda não é só para visitantes. Casais de toda a região de Jambyl vêm a Aisha Bibi no dia do casamento: acredita-se que isso traz uma vida feliz a dois. Em Taraz, o cortejo de casamento pode refazer a própria viagem de Karakhan, do mausoléu dele na cidade até Aisha Bibi, pedindo pelo caminho a bênção dos apaixonados. As mulheres da região vêm aqui rezar por filhos e por uma família feliz.
Como visitar Aisha Bibi
Onde. No vilarejo de Aisha Bibi, 18 km a oeste de Taraz, numa elevação sobre o oásis de Taraz. Do portão, uma alameda reta leva a Aisha Bibi, com Babaji Khatun ao lado.
Quanto tempo. Uma hora basta para os dois túmulos e a história. Reserve mais uma hora para o mausoléu de Karakhan, na própria Taraz: ele remonta ao século XI e foi reconstruído em 1906.
Comportamento. É um lugar de peregrinação. Vista-se com discrição, fale baixo perto de quem está rezando e peça licença antes de fotografar um cortejo de casamento.
Aisha Bibi num roteiro pelo Cazaquistão e Quirguistão
Taraz fica entre Shymkent e Bishkek, então Aisha Bibi entra naturalmente numa viagem que começa no Uzbequistão e continua pelo Cazaquistão, pelo Quirguistão ou pelos dois. Como combinamos os países está no nosso guia de tours pela Ásia Central a partir do Uzbequistão.
A oeste: Shymkent e Turquestão
De Tashkent, a estrada sobe para o norte, cruza a fronteira e chega a Shymkent. De Shymkent a Taraz são 176 km para o leste. O Turquestão, com o mausoléu de Khoja Ahmed Yasawi, fica do outro lado, a noroeste de Shymkent. Um único circuito pode reunir tudo: Tashkent, Turquestão, Shymkent, Taraz. Como chegar ao Turquestão está no nosso artigo Turquestão a partir de Tashkent.
A leste: Bishkek, a torre de Burana e os balbais

A leste de Taraz, a estrada entra no Quirguistão e segue até Bishkek. A torre de Burana não fica ao lado de Aisha Bibi: ela está cerca de 80 km depois de Bishkek, a leste da capital e 10 km ao sul de Tokmok, no vale do Chuy.
É o minarete do século XI de Balasagun, outra cidade caracânida. Já teve cerca de 45 metros; um terremoto no século XV levou a metade de cima, e restam uns 25. No campo ao lado ficam os balbais: figuras de pedra com rostos entalhados que os nômades túrquicos colocavam como marcos de sepultura entre os séculos VI e X. Com o Você sabia? A árvore genealógica da tulipa começaria no Tian Shan Muito antes dos jardins otomanos e dos campos de bulbos holandeses, tulipas selvagens cresciam nas montanhas da Ásia Central, e o Tian Shan é muitas vezes apontado como sua terra natal. Em abril elas florescem nas encostas ao redor de Chimgan. Saiba mais → nevado ao fundo, rendem um ótimo meio dia a partir de Bishkek.
Regras de entrada: confira seu passaporte
Este roteiro pode cruzar três fronteiras, e as regras dependem do seu passaporte. Com passaporte britânico, por exemplo, o Cazaquistão dispensa As regras de entrada dependem do seu passaporte. Uma vez aqui, cada estadia precisa ser registrada em até três dias, e os hotéis fazem isso por você; as regras de alfândega e registro estão no nosso guia. Saiba mais → por até 30 dias por visita, e o Quirguistão por 30 dias em cada período de 60. Para o Uzbequistão, veja nosso guia precisa de visto para o Uzbequistão. Se você viaja com visto eletrônico uzbeque e pretende voltar, peça um de entrada dupla ou múltipla. Antes de reservar qualquer coisa, conferimos cada passaporte do grupo com as regras em vigor em cada país.
Em resumo
- Aisha Bibi é um túmulo dos séculos XI–XII a 18 km a oeste de Taraz, revestido de terracota entalhada com mais de 60 padrões.
- A lenda: Karakhan, soberano de Taraz, casou-se com Aisha enquanto ela morria de uma picada de cobra no sétimo rio; sua ama Babaji Khatun ficou para cuidar do túmulo e descansa a poucos passos.
- Os recém-casados ainda vêm aqui pedir a bênção dos apaixonados.
- Combine com Shymkent e o Turquestão a oeste, ou com Bishkek e a torre de Burana a leste.
- Confira as regras de entrada de cada país do roteiro para o seu passaporte.



